
Fico pensando nessas crianças, deslumbradas com o mundo purpurinado e cor-de-rosa que os adultos em suas ilusões lhes apresentam, ficando acostumadas com os hábitos e a vaidade adulta; falo, por exemplo, das meninas como a minha priminha, que só se contentam com roupas da Polly, unhas pintadas e salto, além da claro, a inseparável bolsinha da Barbie: uma perua nata. E olhem que ela é ainda um rabisco de gente: com quase 4 anos de idade ela já responde os adultos e se mete nas conversas. Fruto de uma má educação? Pode ser com toda a certeza que nem eu, nem os avós e pais dela tenham tido as melhores atitudes, mas basta ela ver a televisão para aprender. Até que ponto é saudável criar os filhos como mini-adultos, criaturas prodígio com liberdade de escolha? Será que não se deve pôr um limite nisso?
Não é moralismo da minha parte, podem crer. É claro que ela precisa de liberdade pra escolher o que ela quer, mas não com quatro anos! Cabe aos adultos escolherem por ela, por que nessa idade ninguém sabe o que é melhor pra si. Nunca fui careta, pelo contrário, prego o modernismo aos quatro cantos, e acho que as coisas estão aí mesmo para serem experimentadas, desde que nos faça bem. Só que as crianças de hoje vivem como gente grande, nascem intrometidas e metidas. Aprendem a maquiar o rosto antes mesmo de descobrir o que significa isso, e vivem vidas tão atribuladas e confusas sem nem terem aprendido as vogais. Não são crianças, são cópias dos pais, vizinhos e amigos e procuram copiar as atitudes dos mesmos que, por vezes, vivem frustrações e mundos muito densos e ilusórios para as pobres cabeçinhas infantis.
Crianças que brincam de bonecas, mas já são mães de verdade; crianças sem personalidade, que se vestem e se comportam iguais para serem aceitas num grupo (em parte isso nunca deixa de acontecer, não importa a idade, dependendo da cabeça da pessoa); crianças que cantam funk e afloram a sexualidade cada vez mais cedo (eu não quero dizer que o tipo de música é relevante quanto à sexualidade, apenas acho que tanto as músicas quanto as letras são para serem ouvidas por adultos vacinados que já sabem muito bem o que querem); crianças que não brincam mais de mocinho e bandido, mas vivem a dura realidade do polícia-ladrão todos os dias; crianças que não brincam de roda, de cabra-cega, de passa anel, de pega-pega ou esconde-esconde, mas se divertem com jogos computadorizados, brinquedos de pilha e que andam sozinhos. Escrevo paras as crianças, não só as meninas, mas também para os meninos que sustentam famílias em faróis com malabarismos e lava-jatos, pequenos anjinhos sem discernimento, infligidos na escolha de serem apenas crianças para se tornarem o que bem quiserem os adultos. Para aquelas que perderam a inocência, deixaram de ser o que são e viraram marionetes da moda, da falta de igualdade, da pobreza, da falta de informação, do abandono, da solidão.
Criança tem que ser criança! Terão muito tempo para serem outras coisas.




