
Primeiro eu arrumo as lentes dos óculos no meu rosto. Eles me incomodam um pouco. Aí, o que mais mesmo? Ah sim, começo a digitar frases que não tem muito a ver com o que eu estou sentido, só pra esquentar. Ou pra me enganar, fingir que o dia está maravilhoso, que sim, eu posso dar a volta por cima, como tantas vezes eu já fiz.
Nunca é minha intenção me degradar, fazer draminhas, ter pena de mim mesmo. Pena, aliás, eu odeio, posto que sigo a lógica do “você escolheu isso pra você” e todas aquelas baboseiras super excitantes que os livros de auto-ajuda nos ensinam. Pois é, pena não. Mas ao mesmo tempo que eu quero encarar a vida de uma maneira mais leve, sem algozes ou vítimas, eu não consigo – simplesmente, não consigo – sacudir a poeira desta vez. Não foi nada de especial. Mas sabe quando você olha ao redor e não vê razões? Assim, razões mesmo. Por exemplo, você acorda de manhã pra quê? – trabalhar/estudar/fazer sei-lá-o-quê – é a sua resposta. Mas por trás de trabalhar existe o “querer ganhar dinheiro”, e por trás disto, o “querer viver melhor” e ainda, “querer dar uma vida melhor pra mãe-pai-filho-tio-sobrinho-primo-cachorro”. Existe um motivo para que você trabalhe. Mas e quando não existe o motivo que faça você acordar pra trabalhar, acordar pra estudar, acordar pra cuspir? Vejam bem, não é um ponto de vista dramático ou taciturno. É simplesmente se questionar: pra onde eu vou agora, se eu não tenho pra onde ir?
Quando você não tem filhos pra sustentar, quando ninguém depende da sua existência pra nada? O objeto da minha pergunta não é a vida de alguém. É a existência. Existir a fim de quê? Já repararam como alguns pais adoram colocar a culpa de suas vidas infelizes nos filhos? “Não me separo, porque tem as crianças”, “não fosse o fulano e eu iria à festa”, “não pude porque meus filhos precisavam de mim”. É lógico que temos prioridades nas nossas vidas, e muitas vezes deixamos de fazer certas coisas porque alguém precisa da gente. Mas colocar o motivo do fim em alguém que não nós mesmos, é dizer que não somos donos dos nossos narizes, ao mesmo tempo em que dizer “não me separo porque eu não quero” nos coloca no sujeito da ação que não foi executava, o que cobra, por conseqüência, em uma atitude: a de se separar ou não. Aí entra o ponto das minhas perguntas: se eu tenho consciência de que sou dono do meu nariz, se ninguém depende da minha existência pra ser mais ou menos alguma coisa, se eu não encontro motivos pra fazer o que eu faço, o que acontece?
Alguma coisa estranha aconteceu: eu dormi, e durante o sono acordei várias vezes durante a noite. E toda vez que eu acordava, varios problemas voltavam na minha mente e eu pensava: “não acredito”. Acordei meio tonto, meio dopado. Fiz a mesma coisa que faço quando acordo cedo. Nada mudou. Mas dentro de mim, alguma coisa mudou. O fato é que, preciso de um motivo. E não o encontro.
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