segunda-feira, 7 de setembro de 2009

7 De Setembro!


Era 7 de setembro. Lembro-me bem desse dia. Uma chuva caindo fininha, transeuntes andando a esmo, alguns apressados, uns iam e outros vinham, acelerados e circunspectos, irritadiços e lentos, e havia ainda os que não sabiam nem para onde iam, quanto mais para quê voltavam.
Era 7 de setembro. Não, não era a Independência do Brasil, muito embora fosse no mesmo dia e mês, de muitos anos atrás. Mas era dia de vitória, dia de vida e de morte. Lembro daquele choro ecoando tão perto de mim, tão dentro e tão forte. Choro grave, bravo, violento e inquietante. E a mulher ao meu lado chorava também, um choro aliviado e de bênção, choro de tristeza e adorável felicidade.
Era 7 de setembro. O hospital há alguns passos de mim parecia não notar, mas aquela mulher jogada a um canto dava a luz a seu bebê, uma menina branca como cera, encorpada de sangue e de lágrimas. Um bebê. Uma criança. Inocência. Vida nova.
Era 7 de setembro quando eu vi aqueles olhos pela primeira e última vez. Não pude deixar de ajudá-la a pelo menos entrar naquele hospital público, a fim de receber o mínimo de assistência. Seus olhos profundos, mais pareciam duas jabuticabas. Olhavam-me complacentes, a admirar-me as fisionomias amargas, tão gastas pela vida. Mas cheios de esperança, talvez pelo fato de eu ajudá-la, talvez pelo fato de ter ganho aquela criança, naquele momento, seus olhos reluziam como duas pérolas negras.
E não pude esquecer, nunca: era 7 de setembro. E aquela menina estava deixando a barriga de sua mãe, lugar protegido, para viver sua independência daquele ventre. Tão adorável, tão frágil. Suas mãozinhas pequeninas tentavam agarrar meus dedos ao passo que seu choro clamava por vida! Ar! Sol! Chuva! De sua formosura, deixai-me que diga: era bela como o avelós contra o Agreste de cinza. Mais ainda belo era a luz que vinha de si, belo porque é uma porta abrindo-se me muitas saídas.
E não era nem quarta, nem domingo. Nem dia 2 ou dia 15. Não era fevereiro, nem dezembro. Era num dia 7 de setembro, dia em que senti a maior das recompensas, a maior das glórias, o maior dos troféus: ajudei aquela pequenina mocinha a viver! Sim, ela vive! Vitória! Vida longa à pequena Vitória.
Nada mais me lembro, senão do amor que aquela mãe transportou à sua adorada filha, logo após terem adentrado o hospital. E de que era num dia gris e chuvoso de 7 de setembro.

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